Pagª 4 - EDIÇAO NºXLVII , III NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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O sapo que prendeu um boi por uma perna

Conto por  Maria Petronilho

 

Gordo, pintalgado, vaidoso, o sapo Adaúlfo disputava quantas sapas havia nas redondezas e era o pai e o avô de centenas de girinos. Corria com todo o sapo, rã-macho e salamandro ... era um bicho de respeito!

Ficava horas e horas remirando-se nas poças, qual Narciso... A sua volta crescia a erva viçosa, que atraía mosquitos, moscas e gafanhotos, seus petiscos predilectos.
Ora era o lameiro o pasto de Zacarias, «o boi do povo».
Este era o felizardo boi comunitário.

Era lindo, anafado, reluzia o pelo ruivo. Tinha os cornos revirados com uma borla nas pontas.
Ninguém o atava ao arado; ninguém lhe punha a canga nem o prendia à carroça.
E, se bem que nem soubesse, por certo adivinhava, ter a vida garantida... garantido era que não iria para o açougue.

Os olhos meigos, dourados, rebrilhavam de saudável alegria.
Tendo sido eleito de entre todos os touros o mais escorreito e vistoso, era o noivo prometido das vacas da vizinhança. Era o reprodutor por excelência, tinha emprego assegurado... e trabalhava por gosto!

Juntava-se entre todos o feno com que alimentá-lo no Inverno. E se fazia bom tempo, cada um por sua vez, levava o boi ao pasto.

Esse era um dia de azar na vida de Adaúlfo!
Ah que raiva tinha ao toiro! Malvado!
Roía, roía... enchia o prado de bosta, pisoteava as poças, onde cresciam os filhos... maldito do boi Zacarias...
Adaúlfo dava voltas aos miolos: como haveria ele de espantar o monstro?!

Ia perto, a ver se lhe apanhava o «tendão de Aquiles», o ponto fraco de um ser tão forte, que não podia ser corrido como os outros... tinha de inventar uma armadilha, que o assustasse ao ponto de o fazer perder o apetite... claro que os humanos nunca suspeitariam se si!

Estúpidos, aqueles que andavam sobre as patas traseiras e se era preciso dar um salto, se esparramavam na lama que nem tartarugas coxas!
Tanto congeminou... tanto ia cada dia para mais perto do pacífico Zacarias que este, num dia em que procurava um lugar para se instalar ruminando, distraidamente pisou-o!

Ai que dor sentiu Adaúlfo!
Que vontade de gritar com a boca escancarada: Ai, que o boi mata-me!
... Abriu a bocarra, encheu-a de ar mas no instante exacto em que ia soltar o grito... a mente iluminou-se-lhe!
E em vez de se queixar, disse, meio debaixo do casco, e em tom vitorioso:
- Venham todos! Venham todos! Peguei o boi por uma perna!
- Peguei o boi por uma perna!

Zacarias, habituado a meiguices, apanhou um desses sustos!
Nem se deu conta do sapo! Desarvorou em corrida, até que chegou à aldeia, o povo espavorido corria atrás do touro: mas que aconteceu ao bicho; mas o que é que o espantou, que era tão manso?! Pois sim!

Corneava a torto e a direito; não deixava ninguém chegar-lhe a mão ao pelo!
Reuniu-se o povo no largo do pelourinho.
Que se havia de fazer ao touro, se não deixava ninguém chegar perto, como se levaria aos currais da vizinhança na altura de o chegar às vacas?!
E quem quereria arriscar-se a ver nascer no seu palheiro um bezerro marrão?!

Deitaram-se sortes, que havia várias opiniões.
Um chapéu passou de mão de mão e de cada mão caía um papelinho enrolado, como se faz nas quermesses.
No fim contaram-se os votos: sentença de morte ao domingo!
O que sobrasse da comezaina que teria lugar depois da missa, a carne, a pele os os cornos, seriam divididos por todos.

Assim se fez.
Agora o sapo Adaúlfo anda coxo, como uma tartaruga.
Já não lhe apetece remirar-se nas poças de água, outro sapo fecunda as sapas... mas nem assim se perdeu a sua fama de herói:
Ele prendeu um boi por uma perna e o lameiro pertence desde então aos sapos... e a outros bichos, que respeitem as distâncias!

20/1/2004

 

 

 

Histórias da Vida Real

 

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

 

 

«O Cabeção»

Após um parto sofrido, a criança nasceu e depois cresceu. Na idade permitida foi para a escola, mas desde que começou a andar pelas ruas, mesmo registrado e batizado com o nome de João, sendo seus pais conhecidos no lugarejo, as pessoas da pequena cidade chamavam-no de «Cabeção».

Passaram-se muitos anos, a família de vez em quando mudava de cidade, mas não tinha jeito, o João era sempre chamado de «Cabeção», pelo tamanho de seu bloco pensante. Em seu chapéu cabia tranquilamente uma dúzia de laranjas grandes.

Certo dia seus pais morreram. Cabeção resolveu mudar-se para a cidade onde havia nascido. Já haviam-se passado 40 anos. Assim que chegou foi reconhecendo seus colegas de escola. O inferno ficou maior do que quando era criança.

Certo dia, Cabeção acordou cedo, após ouvir alguém bradar da rua:
- Acorda, Cabeção!

Armou-se de revólver na cintura. Bem na pracinha central encontrou um advogado da cidade, que cedo começara o ritual de beber cachaça. Por esta questão de ser alcoolista, deixara de ser um profissional confiável.

Um dos algozes de Cabeção logo lhe perguntou: _ Cabeção, consegues passar naquela porta ali adiante, ou tem que alargá-la?

Foi pela última vez que Cabeção ouviu desaforos da criatura que mais o xingava.

Acertou na mira, bem no peito, e o gajo caiu duro.
Como a família do falecido tinha muito dinheiro, o povo que juntou-se em volta da trajédia dizia:

- Coitado do João, não vai ter advogado para defendê-lo, pois ele é muito pobre!

Preso, Cabeção foi a julgamento. O advogado beberrão disse para ele: - João, eu farei tua defesa!

Só que o povo não acreditava nesta defesa.

Marcado o dia do Júri. O defensor ficou a semana inteira sem beber nada, a não ser água!

Chegou a vez da defesa falar:
-Senhor Juiz, Senhor Promotor, Senhores Advogados, Senhores Jurados e demais presentes, meu boa tarde.

O Senhor Juiz dizia: -Pois não, doutor, pode falar.

O advogado de defesa continuava:
-Senhor Juiz, Senhor Promotor, Senhores Advogados, Senhores Jurados e demais presentes, meu boa tarde.

Esta mesma conversa repetiu-se várias vezes, apesar da advertência do Juiz.

Os presentes irritaram-se e reclamavam a certa altura já irados:
_Fale, Dr. Pinguço, o Sr. está nos irritando!!!

Numa questão de cinco minutos e de dez repetições, virou tudo no maior alvoroço.

O Meritíssimo Juiz, bateu o martelo e disse:
-Fale, Doutor, senão irei prendê-lo em pleno tribunal.

E a defesa começou de verdade:

-Meritíssimo Sr. Juiz, Senhor Promotor, Advogados, Demais Presentes.
Se em uma questão de dez minutos os Senhores estão todos irados e irritados deste jeito, ameaçando-me até de prisão, imaginem o réu, o Sr. João, ouvindo repetidamente durante quarenta anos, chamarem-no de Cabeção!!!


A absolvição foi unânime pelo corpo de Jurados.

Nunca subestime a inteligência de ninguém!!!

Observação:
Segundo algumas conversas este caso aconteceu verdadeiramente, no interior do Brasil.