Pagª 48 - EDIÇAO NºLII, I NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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TALENTOS AFRICANOS
FRAGATA DE MORAIS

Arlete Deretti Fernandes

Feliz a decisão governamental de inserir nas escolas brasileiras a literatura dos escritores e poetas africanos.
Entre eles temos encontrado verdadeiras jóias. Estes escritores precisam ser mais conhecidos no mundo, pelo que trazem de realidades sobre os países africanos e pelo talento expresso em seus escritos.

Alguns deles que tive a oportunidade de ler ou até de conhecer pessoalmente, deixaram-me perceber muita capacidade e uma simpatia muito grande. Tenho certeza de que aqueles que não tive a oportunidade de contactar também são muito talentosos. 

Não digo isto sem provas. Já entrevistei o grande escritor catarinense Salim Miguel, que foi agraciado com o Prêmio Jabutí deste ano, e que me falou das correspondências  e contatos que os escritores catarinenses tiveram com escritores africanos  na década de 50.  Tenho o livro com algumas destas cartas e poesias e são todas maravilhosas pelas suas escritas e pelos seus ideais.

Em nossas vidas acontecem fatos interessantes.

Encontros, desencontros e Reencontros.

Ao ver em Raizonline a foto  e as cronicas de Fragata de Morais, pensei:

- Parece-me que o conheço, mas não recordo de onde. 

Foi aí que resolvi procurá-lo na Internet, e para minha surpresa, encontrei uma foto onde dizia: «III  Encontro de Professores de Literaturas Africanas». Nesta foto, Fragata de Morais está sentado na primeira fileira. Eu estou um pouco atrás.

Foi aí que recordei-me do escritor.  Entrando em seu blog encontrei vários gêneros, títulos diversos,  contos, crônicas e romances.  Todos muito ricos, muito belos. Não me  seria possível lê-los todos em pouco tempo.

Li   «JINDUNGUICES», um conto interessante e original, bem articulado, onde se percebe questões político-sociais de Angola.  Não falta a riqueza  de palavras  do vocabulário angolano, que o autor coloca o significado entre parênteses, para que nós leitores, possamos compreender.

A vida e a Obra de Fragata é vasta e abrangente.

Fragata de Morais, nasceu no Uíge, em Angola, em 1941. É diplomata de carreira com a categoria de Embaixador (Aposentado). Dos vários cargos que ocupou, destacam-se os de Director de Gabinete da Ministra dos Petróleos, Conselheiro e Secretário Geral da Conselho Nacional de Comunicação Social, Presidente da Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos e Vice-Ministro da Educação e Cultura, no Governo de Unidade e Reconciliação Nacional.

Tem vários livros publicados: «Como Iam as Velhas Saber» (Instituto Nacional do Livro e do Disco – INALD); «A Seiva» (INALD); «Inkuna Minha Terra» (União dos Escritores Angolanos – Menção Honrosa Prémio Sonangol de Literatura); «Jindunguices» (INALD – Prémio Literário Sagrada Esperança); «Momento de Ilusão» (Campo das Letras); «Amor de Perdição» (Chá de Caxinde); «Antologia Panorâmica de Textos Dramáticos» (INALD); «A Sonhar Se Fez Verdade». 

Fragata de Morais publicou Memórias de uma ilha (crônica), Inkuna Minha Terra (contos), Sumaúma (poesia), A Prece dos Mal Amados (romance), A sonhar se fez verdade, Jindunguices (contos - Prêmio Sagrada Esperança), A Seiva.

As informações a seguir foram retiradas do sítio da União dos Escritores Angolanos  

Nome: Manuel FRAGATA DE MORAIS
Data Nascimento: 1941-11-16
Naturalidade: Uíge
Gênero Literário: Prosa

Manuel Augusto Fragata de Morais, de seu nome completo, nasceu na Província do Uíge. Seus primeiros escritos aparecerm na década de sessenta em Paris, onde igualmente frequentou a Universidade Internacional do Teatro, na qual trabalhou com André Louis Perinetti e Victor Garcia. (...)

Na Holanda, a convite do STAUT da Academia de Artes Dramáticas daquele país da União Europeia, escrever, realizou e encenou seus trabalhos pioneiros de teatro infantil, que levaram o nome genérico de «Gupia» . Os mesmos foram apresentados no Holland Festival e no Berlin Kinder Und Jugendtheater, em 1971. No seu próprio grupo teatral, The Frist Company, realizou, encenou e actuou em «The Indian Wants the Bronx» de Israel Horowitz, «Fando e Lis» de Arrabal, bem como «The Hole», «Agonies» e «Sketches», todos da sua autoria. (...)

Em 1972 – 75, frequentou a Nederlandse Film Akademie, produzindo para a televisão holandesa, documentários sobre Angola em 1974, bem como em 1975. Seus contos e poemas foram publicados em revista e jornais holandeses, estando incluídos em duas antologias, uma de escritores angolanos e outra de escritores de língua portuguesa. E cronista do Jornal de Angola, membro da União dos Jornalistas de Angola, membro da União dos Escritores Angolanos e Vice – Ministro da Educação e Cultura.

Algumas considerações  

Encontrei no blog do escritor, na Internet, comentários sobre seus escritos, realizados por vários escritores que prefaciaram seus livros, e que pela riqueza de detalhes dão-nos uma sucinta idéia do que seja o panorama de cada  história e de cada enredo.

Por este motivo  copiei-os na íntegra, citando os seus nomes, para que os leitores de Raizonline possam ter uma visão mais completa sobre a beleza da Obra de Fragata de Morais, que  reune Romances, Poesias e Contos Juvenís.

Premios - Livros do escritor

JINDUNGUICES

Prémio «Sagrada Esperança» para Fragata de Morais «Jindunguices» do escritor angolano Fragata de Morais, obteve, no passado mês de Outubro, o prestigiado prémio literário «Sagrada Esperança». O júri premiou Fragata de Morais pela «originalidade, linguagem correcta, leveza de estilo, brevidade, forte sentido de humor, linguagem coloquial e crítica social que reflecte a vida quotidiana de Luanda». Refira-se que o prémio, no valor de 5 mil dólares, é patrocinado pelo Instituto Camões - Centro Cultural Português em Luanda, o Banco Totta & Açores e o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD).

A SONHAR SE FEZ VERDADE - Contos Juvenis

A selva logo se manifestou no ribombar dos tambores coma a notícia estranha. Os ecos percorreram caminhos ínvios até à capital do reino. E ali, os corações encheram-se de alegrias e receios quando o povo se dirigiu para as praias. Todo ele, vindo de perto e de longe, uns a pé, outros de canoas velozmente impulsionadas por braços sinuosos e decididos. O chefe local trajou suas peles de leopardo, adornou a real cabeça e segurou determinado a lança, os dentes da onça pendurados em argola no pescoço, oferendando-lhe ar imponente, desabrigado e senhoril. Os velhos preocuparam-se e, de rostos contritos, buscavam um sinal da expressão do mfumu. Este, vendo-lhes a preocupação, levantou a lança e disse-lhes: - Enti uwende emavungu, kewatembelanga ko. As crianças corriam espalhafatosamente até ao rebordo da praia, corpos nus, luzidios negando o chamamento das mães temerosas, as praias engrossando com a chegada de novas gentes, admiradas e temerosas. A maioria ficava pelo rebordo da mata. Por fim, à medida que os monstros marinhos se aproximavam, línguas de panos desfraldadas em arrogância, as crianças foram chamadas e recolhidas. O mestre nganga, observando um milhafre voar rasante com um rato morto nas garras, predisse augúrios e maus presságios, desaconselhando o fascinado chefe: - Ngandu didi muntu, mfundu ba na mamba, disse o mestre curandeiro. O povo inteiro acocorou-se no mato quando da boca do monstro marinho saíram pequenas embarcações, repletas de gente, que pousaram na água. De longe, as cordas que as sustinham não eram enxergadas e todos acreditaram da descensão maravilhosa, anúncio do poder dos estranhos, deuses albinos. O rato morto caiu aos pés do mfumu, largado pelo milhafre que ainda circulava em cima, talvez ele igualmente espantado. Os estranhos remaram vigorosamente para a praia, lanças enormes reluzindo ao sol. As crianças, mal dominando o medo, irromperam em choros e prantos descontrolados, gritos de bicho acossado. As mulheres deitaram a fugir com as crias, como puderam, enquanto os homens colaram os corpos quase nus ao capim vergado. Só o mfumu e mais alguns se quedaram erectos. Que seres seriam aqueles, tão estranhamente trajados e de pele que nunca recebera o sol? Divindades das águas? Estava anunciado que a salvação do reino do Congo viria de seres albinos, seria esta a hora? Se não fosse, só poderiam ser seres doentios, feras ou divindades malignas esconjuradas pelas rezas e artes ineficazes do ngnga, que urgia o chefe a desbaratá-los com o seu espanta raios. Este, fascinado pelos adornos jamais vistos, pensava que com eles poderia ser a inveja dos chefes vizinhos. Em gesto ousado e corajoso, mostrou-se de longe, sua imponência e ar arrogante anunciando a condição de realeza. Ainda que amedrontados, os nobres imediatamente o seguiram, precedidos pelo conselho de anciãos A cadeira (trono) na qual o chefe se senta, não estremece. (A autoridade de um chefe é inabalável) O crocodilo comeu um homem em conivência com a água. (Há perigos que são misteriosos)

 

A PRECE DOS MAL AMADOS

A PRECE DOS MAL AMADOS: TABUS AFRO AFRICANOS: EU SOU A NORMA: VIVER E TER UMA VIDA... 13 Novembro de 2008

Recomendo muito seriamente a leitura de «A Prece dos Mal Amados» do escritor angolano Fragata de Morais, editada há dois anos pela Campo das Letras, em Portugal e pela Chá de Caxinde em Angola. Quinta-feira, Novembro 27, 2008 7:34:00 AM...

http://tabusafroafricanos.blogspot.com/

Num romance pouco comum pelo seu tema - as dificuldades dos Mestiços tanto em Angola, fora das cidades, como em Portugal -, um antigo embaixador do MPLA conta-nos as atribulações da sua heroína, que teve de deixar Angola juntamente com o pai português, sob a pressão do avô, chefe tradicional, que ergueu a cabeça com a independência.

A nossa ideia de uma Angola paradisíaca para os mestiços é, segundo Fragata de Morais, um enorme logro, e voltamos a saltar para a guerra.

René Pélissier Análise Social, vol. XLI (179), 2006

Das mãos do director do Semanário AGORA recebi o exemplar autografado do excelente livro «A Prece dos Mal Amados», com a incumbência de o comentar nesta página, tendo-me eu comprometido em fazê-lo na Edição que antecedeu o seu lançamento, que teve lugar no dia 17/08/ 2006, sob os auspícios da Associação e Editora Chá de Caxinde.

Agradeço, de todo o coração, a deferência dispensada à minha pessoa. Da minha parte, tratou-se infelizmente de uma promessa feita de ânimo leve; e só quando - após um amável telefonema do escritor Jacques dos Santos, dando-me a conhecer a temática da obra em apreço, aliás muito do meu agrado abordar, como toda a gente sabe e é verdade, - tomei consciência de que me seria inteiramente impossível honrar o compromisso, em tão curto espaço de tempo.

Precisava de, pelo menos, 1-2 meses para fazer a apreciação literária que me era pedida, considerando por um lado que me encontrava em vésperas das provas ou exames de frequência e, por outro e sobretudo, porque um livro de 343 páginas, como é «A Prece dos Mal Amados» de Fragata de Morais, ainda que romance, não se analisa nem comenta «sobre o joelho».

Ou seja, requer necessariamente uma prévia e pausada leitura cótica, atenta e cuidadosamente anotada, tais são a dimensão e os contornos político - filosóficos, sociológicos e sociais das teses subjacentes ao seu enredo e conteúdo.

Na verdade, está-se perante questões abordadas de forma muito corajosa e frontal, em tomo da problemática da «mestiçagem ou, mais especificamente como refere na sua apreciação o Professor Doutor Carlos Venâncio - a do lugar do mestiço (fisiológico) na sociedade angolana em transição». Transição, de quê e para quê?, nos perguntamos desde logo!

Todos sabemos, perfeitamente, quanto a este respeito se afastou e distanciou a política do Estado angolano independente, daquilo que seria - e ainda é - o mínimo ético ou de mera justiça, quando não foi só em 1975 e anos seguintes da guerra civil, que os mulatos/as e mestiços! as deste país tiveram de entoar «preces de mal amados».

António Pinto
Discente da Faculdade de Direito da Universidade Independente de Angola (UNIA).

MOMENTO DE ILUSÃO

«Há sete longos anos que o filho lhe remexia as entranhas. Não havia dúvida, hás sete anos que a criança a apalpava por dentro, que lhe falava em silêncio penoso. No início da gravidez, os médicos observaram-na cuidadosamente, todavia, à medida que os meses passavam, insinuaram uma gravidez psicológica.

Ao décimo sete mês, uma amiga insidiosa propôs-lhe a possibilidade de uma barriga de água. «Não sabes o que é, eu explico-te?..., ofereceu-se. As íntimas propuseram os remédios da terra, a visita aos kimbandas, aos adivinhos. Não havia nada a perder, que não tentasse esconder o que é da terra. Mulher grávida há sete anos só pode ser curada com a tradição, com o debicar engasgado do galo. (…)

SUMAUMA

Sobre a obra, Maria Nazareth Fonseca, Professora Doutora em Línguas Africanas, considerou o seguinte: «Os poemas são construídos com uma intenção de investir no nível da figuração. Por isto é interessante observar como se elaboram as relações entre os títulos dos poemas e os versos que o compõem: por vezes há uma aproximação bem nítida entre a intenção do título e os sentidos produzidos pelos versos; outras vezes, a relação entre o título e os sentidos dos versos se faz pela vertente figurativa na qual as palavras são tomadas pelo poeta para distenderem sentidos previstos (Cf. Poema «Elefantíase», p. 16).

A forma privilegiada pelo poeta busca a ligeireza, a captação do instantâneo, a mobilidade dos versos curtos e dos efeitos obtidos pela variedade métrica e rítmica».

LIVROS PUBLICADOS

O jornalista e escritor angolano Luís Fernando considerou, esta quinta-feira à noite, que o novo livro de crónicas de Fragata de Morais constituiu um verdadeiro instrumento para a memória colectiva do povo angolano, pois surgiu num ano especialmente positivo, sobretudo pela carga política de muitos dos seus textos.

O ex-director do Jornal de Angola fez essa abordagem durante a cerimónia de apresentação do trabalho, publicado pela editorial Nzila, tendo afirmado que os textos carregam a marca de um período conturbado da nação, recordando a época da «esperança de uma paz definitiva na sequencia dos Acordos de Bicesse», em 1991.

Para o apresentador de «Memórias da Ilha», lançado no âmbito das festividades dos 432 anos da cidade de Luanda, o leitor poderá aproveitar esses textos para perceber como «os nossos ricos sonhos foram dolorosamente truncados».

«Lendo as crónicas desse momento da nossa história como nação, acabaremos por perceber como aqueles que nos empurraram para as eleições aceleradas no curto espaço de 16 meses se borrifaram para o desfile interminável de caixões rumo a cemitérios improvisados e pelos nossos milhares de mortos insepultos, as cidades explodidas; bombardeadas; os medos, as angústias, o nosso infinito sofrimento».

No entender de Luís Fernando, uma crónica serve para isso mesmo: reter o tempo, «fazendo de lembrança grata ou amarga para quem foi coetâneo do autor; mas servindo de luz, de ensinamento de conhecimento do passado para quem não o viveu, para quem, entre outras lições, se aprenda definitivamente o que custou a liberdade».

O jornalista afirmou que é lendo obras como «Memórias da Ilha» que se perpetua, nas lembranças de gerações diferentes, o facto de Luanda já ter tido «febres piores que a cólera e que tem problemas tão antigos e tão insolúveis que dão cabo de todas as gerações, para ninguém se rir de ninguém».

Para os mais constantes do Jornal de Angola, Luís Fernando recorda que este livro já foi lido no passado, em formato diferente, com o cheiro a tinta especial dos tablóides, entre notícias boas algumas e angustiantes outras, publicadas por aquele periódico.

«Agora, sejam eles como os que não leram as crónicas quando elas vieram estampadas no Jornal entre 1991 e 2005, temos todos a oportunidade de encontrar reunidas, num só volume, esses textos que têm o valor eterno do género: o de capturar no tempo pedaços de história que muito dificilmente se conseguiria de outro modo», fundamentou.

De forma a evitar equívocos, o jornalista explica que a obra não se circunscreve apenas na realidade da Ilha de Luanda, pois o autor apresenta um olhar atento, crítico e incisivo à volta de toda a cidade, mas sem pôr de parte o país inteiro.

«Só tenho que vos sugerir a leitura, para que se alegrem e se entristeçam com os mesmos prazeres e angústias que acompanharam Fragata de Morais nos dias de inspiração das suas crónicas, que foi deixando sem se cansar e sem cobrar nada nas bancas do nosso jornal, desde o princípio de 90 a princípios de 2000», concluiu.

INKUNA MINHA TERRA

Sobre a sua obra Inkuna – Minha Terra, lançada em 1997, o conceituado escritor Angolano, Henrique Abranches, diz o seguinte: «Esta pequena obra do escritor Fragata de Morais constitui para mim uma leitura penosa de onde sai deprimido, não porque eu não conhecesse que a verdade está por trás de muitas das suas estórias, como todos nos que não andamos a dormir conhecemos tão bem.

Mas ele soube ser doloroso por vezes ousadamente controverso, quase provocatório. A coragem que passa nalguns dos seus contos, como «Jogo de Xadrez», ou as «Amizades», tem traça de um combatente , de alguém que não quer ser derrotado, porque não acha justo, e embora não saiba triunfar, soube ver e sofrer com o que viu ( Martinha), é um bom exemplo, entregando ao leitor a batata quente...

(Continua)