EDIÇAO NºLIII
, II NUMERO DE JANEIRO DE 2010 -
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O DESCASCADOR DE ARROZ
Por
Arlete Deretti Fernandes
De minha infância guardo as recordações mais despreocu-padas e felizes. Minha
mãe pouco me deixava sair para brincar fora do espaço de nossa casa. Quando eu
conseguia permissão para sair e sentia a liberdade, muito magrela saía dando
pulos e correndo bem depressa, com os cabelos ao vento e olhando para trás de
vez em quando, com receio de que minha progenitora mudasse de opinião.
Meus cabelos eram grossos e pretos. Minha avó se encarregava diariamente de
trança-los. Tinha um laço de fita em cada trança e a recomendação de cuidar para
não perdê-las...Eu era chamada por meu pai de «a menina das longas madeixas.»
O descascador de arroz situava-se junto a padaria e a residência da familia
proprietária. Quando juntavamo-nos, todos os amiguinhos, nossa maior alegria era
pular do alto do prédio que abrigava o descascador, sobre o grande monte de
palhas do solo. As palhas de arroz, muito leves, afundavam-nos com nossos pulos
e na descida sentíamos um frio na espinha.
Corríamos pela padaria, pelos pastos, como filhotes de aves soltas em bando e
alegres cantarolando. Descíamos os morros verdes de grama, embarcados em calhas
de coqueiro. Não era rara a vez em que voltava para casa com o vestido
confeccionado pela vovó todo rasgado ou com o rosto inchado de picadas de
marimbondos.
A família proprietária deste conjunto era numerosa. O senhor Genaro era
magrinho, sua esposa, ao contrário era uma senhora gorda e corpulenta. Ele tinha
uns costumes que desagradavam a muitos. Blasfemava demais. E blasfêmia saída da
boca de italiano não é nada fraca.
Devido ä amizade com as crianças, andávamos por todos os compartimentos da casa.
Sabíamos que o Sr. Genaro dormia do lado de dentro da cama, encostado a parede e
que Dona Maria dormia do lado de fora.
Certo dia ela contou-nos que precisou dar uma «sova» boa no Genaro. Aproveitou o
espaço que era favorável, pois dali ele não conseguia fugir tão fácil. O motivo?
Era o belo palavreado que nem na cama para dormir ele dava tréguas.
Na língua portuguesa não há a blasfêmia propriamente dita. O povo xinga, roga
pragas, diz palavrão. Mas não blasfema. Com eufemismo, os nossos mais antigos
diziam pardês e pardelhas em lugar de dizer por Deus.
Os franceses convertem a palavra Dieu «Deus», em bieu ou bleu. Em outras
blasfêmias dizem parbieu (par Dieu), morbleu, (mort de Dieu),corbleu (corp de
Dieu) e outras.
Os italianos dizem per Diana, perdinci, perdina, perdícoli, diácine,
perdindirindina. Ouve-se: per crispo (per Cristo), perlamadó, (per La madona).
Em expressões como porco cane, porca loca, etc. Mutilam a palavra porco e porca
e amenizam dizendo:
Orca loca, orco cane. Como também osti, ospia, cramegna, cramento e outras.
Estou fazendo esta digressão por uma questão de curiosidade, porque parece-me
que certas blasfêmias hoje são pouco usadas. As novas gerações as desconhecem,
assim como a grande maioria esqueceu a língua dos antepassados, devido a várias
circunstâncias.
Outro espaço onde adorávamos brincar era no sótão da enorme casa. Hoje ainda
tenho em minha lembrança a imagem da grande escadaria, e o telhado com suas
águas furtadas. Havia alguns lugares onde o teto era baixinho e nós, mesmo
pequenos, batíamos com a cabeça. Muitos eram os quartos de dormir.
Certo dia correu pela vila a notícia de uma situação ocorrida que se tornou
cômica. Foi quando uma enorme cobra caninana, também chamada de rateira, entrou
pela janela do sótão e começou a caminhar por cima das camas. As crianças
gritaram e o Sr. Genaro apareceu com um revólver carregado. Muita ospia,
cramegna e outras palavras saíram-lhe pela boca.
Genaro estava branco e suava frio, e não acertou um tiro que fosse na caninana.
As balas de revólver furaram colchoes, lençóis e outros objetos e a cobra saiu
pela janela e pela cumeeira, com toda a calma. Ao relatar a façanha, o atirador
considerou-se o próprio Don Quixote, tal o ato de heroísmo. Certamente que
precisou acertar as contas com Dona Maria.
Hoje, quando me recordo deste quadro, eu imagino:
- Não seria a Cobra Norato que por aquela região estava de passagem? Se fosse
ela, tenho certeza de que Raul Bopp diria:
-«Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar»
A família de Genaro e Maria era como um filme, tantas as cenas representadas
pelos mesmos. Todo ano havia na vila a grande festa da padroeira. Neste dia, uma
das meninas gêmeas, brincando no balanço que era feito de duas cordas e uma
taboa amarradas em um galho de uma árvore, caiu e fraturou o braço.
Dona Maria estava a trabalhar nos bazares da festa da igreja, como fazia a
grande maioria dos fiéis moradores. A situação, mais do que esdrúxula, chamou
rápido a atenção da vizinhança e de quem passava .Genaro saiu a rua, e em frente
a própria casa gritava:
-Quanto mais eu ajudo a igreja, mais desgraças me acontecem. Eu vou trazer toda
a minha família e deitar todos no caminho para um caminhão passar e matar tudo.
Ospia, porco cane, cramenta ...
Uns fechavam os ouvidos e outros riam. Chamaram a Dona Maria na festa, que
largou tudo e veio rápidamente, com as mãos á cintura. O acerto de contas eu não
sei até hoje qual foi!!! Apenas imagino...
Poema de Arlete Deretti Fernandes
Chuvas de verão caem torrencialmente.
Exala para dentro de casa o cheiro
de terra molhada, de grama cortada,
que o calor expande deliciosamente.
Suave perfume exala do jasmim miúdo
e florido. Na história que li, estas florzinhas
eram preferidas de D. Pedro I, quando
Imperador do Brasil. E ele mandou plantá-las
Por muitos lugares do Paço Imperial.
Esta imagem faz delinear-se em minha mente
A beleza da Família Imperial,
Os salões de festas, as danças e saraus.
Contemplo o que passou e o que foi vivido.
As damas e os cavalheiros, as roupas da época.
Os amores escondidos, os segredos que no tempo
Ficaram esquecidos. E a vida é como estas flores’
Em tempo e em duração. Algumas fenecem e o
Sol também as castiga até a próxima estação.