Pagª 19 - EDIÇAO NºLII, I NUMERO  DE JANEIRO DE 2010 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Poemas de Ilona Bastos

Ideia de Vida

Em redor, um silêncio manchado,
pincelado aqui e ali
de portas que se abrem
e são bruscamente arremessadas,
de passos, de falas, de automóveis
que rodam e guincham lá fora...

Através dos vidros,
subtil, quase incolor,
quase transparente,
o balancear das folhas
que as árvores agitam
suavemente...

Mas aqui, nesta sala,
mal soam ruídos ou gestos,
senão o meu roçar do lápis
sobre o papel...

O espaço preenche as quatro paredes
praticamente intacto
de sons e movimentos.
Imóveis, as mesas e cadeiras recortam-se
lineares, elegantes e plenas
das três dimensões.

A porta entreaberta,
a janela, as persianas,
na parede um telefone que não toca,
acentuam esta ideia de espaço, de existência, de vida!


A Vinha e a Esperança

Agora, é a videira que se enche de parras e de uvas,
que cresce, afoita, num reboliço de gavinhas,
limbos, pecíolos, bainhas, e que se expande sobre o muro,
galgando-o magnificamente, desafiando a rua,
debruçando-se, viçosa, com seus cachos caprichosos,
sobre os carros, as carrinhas e os apressados peões.
Nada teme esta videira citadina, tão tranquilamente verde,
tão essencialmente terra, água e sol, tão fiel a si mesma!
.
Pudéssemos nós, humanos, conhecer a nossa natureza,
Interiorizá-la, assumi-la, vivê-la, expressá-la,
independentemente do solo onde nascemos
e dos obstáculos que a vida nos coloca,
indiferentemente das modas e passageiras seduções.
Seríamos o Homem na sua identidade perfeita,
íntegro defensor do Amor, da Paz universal e do Bem.
Tão natural nos seria sermos humanos como à vinha é ser vinha.
.
Na vinha encontro a plenitude, a beleza do ser.
Enquanto os homens continuarem a plantar vinhas na cidade,
alguma esperança haverá para o Mundo!


HAICAIS

Apaixonei-me, a dada altura, pelos haicais, esses tercetos de origem japonesa que ganharam impulso com Bashô e que devem obedecer a regras bem precisas.

Escrevi, então, uma série deles.
Embora duvide ter logrado criar verdadeiros haicais, a realidade é que consegui passar ao papel algumas ideias que há muito me acompanhavam, mas nunca encontrara forma de exprimir.

Límpido o céu
O vento traz uma nuvem
Matinal passeio

Na manhã nublada
Um raio de sol brilha
Num sorriso belo

Parou de chover
O sol inunda os campos
Piam os pardais

O longo abraço
Da cortina sobre si
Mostra o arvoredo

Na janela aberta
O espanta espíritos
Atrai os sonhos

A janela aberta
O sino e a cortina –
Uma valsa ao vento.

Na mimosa flor
Que da árvore voou
Vi o Universo

Folhas douradas –
No Verão, são notícias
Do bom Outono

Pólen a pairar
Em raio de sol poente
Planta um jardim

Ilona Bastos

 

 

 



Poemas de Jorge Vicente

POEMA UM

1.
diz o mestre ao discípulo:
reúne a cor na sua expressão
máxima e juntai-a de luz branca

só assim as aves serão
mais do que pontos negros
na copa dos dedos

2.

as crianças fogem. e do seu
cálice retomará o espírito
a sua longa caminhada

3.

fácil é a palavra que se
incendeia quando dita;
difícil o poema que dança
no colo de um vulcão


POEMA DOIS

eu digo: chamaremos as mulheres e invocaremos o sacro império do corpo. não existe
pedra maior (ou mais bela) do que aquela onde dioniso se esconde, o deus entre os
homens, a pedra ante a gélida raíz dos antepassados. formaremos uma roda e
imitaremos o som de todos os animais. todo o poema é proibido: só a origem, a
hierofania do ritual e da pele contra pele.


POEMA TRES

responde-me se ouvires os pássaros, ou se do teu interior a voz é de guerra, um
silvo constante, o boum das palavras grandes, das palavras santificadas pelo uso,
mesmo que o uso seja o apanágio da noite - aquela noite que não pertence a ninguém,
é apenas nossa e da paisagem que nos cerca:

uma casa,
a ribanceira entre as casas,
um abrigo onde o pastor se alimenta,
o caminho milenar por entre as águas do rio,

um trovão é apenas isso: uma voz sobre o alentejo,
um rumor que rompe o guadiana e nos sobra de pele
e de versos entre os relâmpagos.

sei que tudo sobra, mas a casa é só minha.


NUVEM

carrego uma nuvem às costas
como se dependesse de mim
permanecer no silêncio

naquele silêncio
que não se quer rígido
esquecendo-se do propósito de
existir e de alimentar o fogo

sossega-me ver uma casa ao
longe, adormecida no ceptro
de terra abandonada

uma casa caiada de branco, todas
as casas o são, mesmo que os olhos
roubem a realidade
e deus a ignore.

a memória verga todas as coisas,
mesmo o silencioso movimento
da não-existência.

tudo é ilusório.

a casa abraça
a ferrugem dos corpos caiados
de gestos. os dedos movimentam-se
numa sinfonia de trevas

jorge vicente


Water (Deepa Mehta)

Agua (Water) de Deepa Mehta é, talvez, um dos mais belos filmes que vi nos últimos meses, talvez anos. E uma história muito bonita, passada na Índia, e narra a história de uma jovem menina de nove anos, que casa e enviúva bastante nova, sendo obrigada a ir para um ashram de viúvas, para aí permanecer até ao fim da sua vida. Nunca poderá voltar para a sua vida anterior, nunca poderá voltar para casa dos pais, terá de viver uma vida de resignação, abandono e lamentação. Uma espécie de meio-viva, porque metade da sua alma foi levada pelo marido, que nunca conheceu.

E é o retrato da Índia onde, a par com esses dramas profundos e tremendamente injustos, aparece uma réstea de esperança: o grande Mahatma Ghandi, libertador, um dos avatares da humanidade que prega a não-violência e o amor. Até para quem parece estar arredado dele. Como as viúvas. E essa presença, que só vemos fisicamente na parte final do filme, é central e tão forte que faz ter esperança que tudo se resolva na direcção daquilo que é certo e justo.

Muitas vezes, durante o filme, apetecia-me mesmo pôr-me em posição de lótus e deixar o Ganges entrar dentro de mim.

Este post é dedicado a todos aqueles que querem viver uma vida de amor e alegria.



Jorge Vicente